- Autor: Miguel Catarino -
E o apito? E as calças impermeáveis com o sol que se prevê?
E a t-shirt de manga comprida? E a lanterna? E...
Preciso mesmo?
Tanta pergunta!
O que me assusta é que quem faz estas perguntas, não tem
noção absolutamente nenhuma do que é a montanha. Ou se tem, tem muito pouca.
O pior é que são cada vez mais a questionar e isso
assusta-me. O Trail está a crescer e muitas pessoas passam de correr na
marginal para ir correr para a montanha sem terem noção que quando as coisas na
montanha correm mal, é tudo muito pior.
O material obrigatório devia chamar-se: Material que eu vou
precisar se me perder na montanha e tiver de pernoitar por lá, material que vou
precisar se partir um pé e tiver de ficar horas à espera de um resgate,
material que tenho de ter para se as condições climatéricas mudarem
drasticamente conseguir sobreviver.
Normalmente as coisas correm bem e tudo acaba bem e as
pessoas perguntam o porquê de ter carregado tanta "tralha" para nada.
Pois é. O pior é quando corre mal!
Tenho imensas histórias na montanha, mas conto uma muito
simples.
Num TrailCamp, saímos do Rossim com muito bom tempo.
Sorridentes, subimos pelo vale glaciar a caminho da Torre. Ao chegar lá acima,
as condições mudam drasticamente e de repente parecia que estávamos no inferno.
Ventos fortíssimos, muito frio e visibilidade reduzidíssima.
Todos começamos o dia descapotáveis e todos tivemos de utilizar o que tínhamos
na mochila (o tal material pesado e chato que incomodou na parte que estava
sol). Foi o impermeável, as calças, o gorro, as luvas,...
A navegação até ao Rossim, pelo maciço central, foi feita
por gps. Não se via mariolas, nem trilho, nem nada.
Se fosse durante uma prova, ou as marcações estavam de 2 em
2 metros, ou metade da malta ia-se perder.
Perder? Ok...qual é o stress?
É mesmo muito! Só quem já passou por isso é que sabe.
Lembrem-se que caminhos para Norte existem milhares, mas
muitos passam em precipícios!
A melhor decisão é parar e esperar que a situação
melhore.(caso não tenham gps)
Parar implica arrefecer muito, e em condições severas todo o
material vai ser pouco.
Pode acontecer o mesmo à espera de um resgate. (lembro-me de
um tipo no CCC que depois de torcer um pé, quase morria de hipotermia à espera
que o socorressem, mesmo embrulhado na manta térmica. Valeu alguns atletas q o
auxiliaram)
No meio da montanha um resgate demora horas! Horas!
O que eu acho que devia ser boa prática, pode parecer
utópico, mas fica o conselho:
- Antes de se aventurarem em provas de trail, todos deviam
fazer um curso de montanhismo, ou vir a um dos nossos TrailCamps.
Tenho a certeza que as perguntas do material obrigatório e
os porquês acabavam.
- Estudar muito bem o sítio para onde se vai correr é
obrigatório. Saber ler cartas militares, perceber a geografia do terreno que
vamos pisar, permite-nos estar mais à vontade. Responder a perguntas simples
como por exemplo: Quando estiver a correr em direção à torre no planalto central,
é suposto o sol estar onde? Na minha esquerda, de frente, da direita? Vou
cruzar linhas de água? Quantas? Etc.
- Levar sempre, repito, sempre, um gps. Se não for com o
track da prova inserido( o que aconselho caso até tenham dúvidas na marcação)
pelo menos que grave o track que estão a fazer. A função trackback já me safou
muitas vezes!
- Caso possam (é um bocado caro) levem convosco um Spot. Eu
quando vou sozinho, considero-o o meu melhor amigo. ( o spot é um aparelho que
permite pedir socorro e localizarem-te em locais onde não podes utilizar o
telemóvel)
Perceber que a montanha é um local fantástico, mas que de
repente pode ser a nossa última morada, é ser sensato.
A montanha tem riscos. Temos é de ter consciência deles e
tentar minimizá-los.
Havia muito mais a dizer. Eu já passei por muitas situações
de risco e continuo a aprender. Tenho tido tb alguma sorte nesta aprendizagem.
Não sou nenhum anjinho!
Espero que este post (para os q tiverem pachorra de ler
tanto) permita as pessoas que tanto perguntam, pararem para refletir um
bocadinho. Se no final disserem que faz sentido, fico contente.
(Não retiro uma vírgula.)










