16 de junho de 2016

X Ultra Maratona Caminhos do Tejo


Dois finishers: ele a correr e eu a dar apoio. Percebo agora quando me diz que o parto lhe custou mais a ele do que a mim. Esta prova também me saiu do pêlo.

Não foi fácil, andei 17h36m atrás dele. Estive sempre à espera. Horas a fio. À espera. Ora bebia chá, ora encostava a cabeça ao vidro do carro, ora caminhava para espantar o sono, ou não fazia nada. Simplesmente esperava.

Ele chegava e eu tinha tudo preparado: isotónico, depósito do camelback com água, barras de cereais, etc… Fazia massagens, esfregava-o com protetor solar, trocava-lhe a roupa, molhava-lhe o pescoço e o rosto e dava-lhe um beijo. Repeti isto dez vezes. Começámos às 20h de sexta-feira e terminámos pela hora de almoço de sábado.

Nunca tive grandes dúvidas da dificuldade de uma ultra maratona. Mas desta vez a perceção da dificuldade foi muito diferente. Tive aliás, novas perspetivas do que é uma ultra maratona.

A história desta prova acabou por ter um final diferente. Diferente e difícil.

Pela primeira vez o Paul Michel fez um 3º lugar da geral. É um facto. E como excesso de modéstia também é arrogância admito que fiquei muito contente por ele. Mas acreditem, e sei que alguns acreditam mesmo nisto, o que mais me gratifica é o percurso. O percurso desta prova assemelha-se muito ao seu percurso de vida.

O começar a prova, corrê-la, sofrê-la, vivê-la, morrê-la e terminá-la… Vale qualquer pódio. E isso ele tem-no feito sempre (mesmo quando desistiu nos Pirinéus), de forma honesta, trabalhadora e empenhada.

Paul Michel termina a X Ultra Maratona Caminhos do Tejo, com 144km, e pela primeira vez alcança um 3º lugar da geral. Mas com recurso a doping, admito já. Em cada posto de abastecimento estava o seu doping: o abraço, o afago, o beijo e as palavras de ânimo da mulher, dos filhos e até da sogra. E isto, meus amigos, é um doping infalível e seguríssimo, daqueles que ninguém desconfia e não acusa quando se faz xixi no copinho.

Fica a dica para todo o mundo da corrida...

Além deste 3º lugar, classificou-se ainda, e como sempre, em 1º lugar na admiração que eu e mais algumas pessoas sentem por ele. 

Depois do que vi, vivi e senti a minha admiração por ele cresceu muito mais depois desta prova. Muito mais…

Uma palavra de apreço aos elementos dos postos de abastecimentos que foram incansáveis na simpatia e dedicação. Em especial, aos postos de abastecimento de Azambuja, Valada, Santarém (e aqui uma menção especial ao massagista), Santos e Olhos de Água. 

Deixo-vos com alguns registos desta epopeia.


A caravana de apoio

A partida








Não temos fotos da chegada à meta. É uma pena... Estranhamente não encontro registos desse momento. Fica para uma próxima.







"Olhe, desculpe, o caminho para o Valle D'Aosta, para o Tor des Geants?"

"Meu amigo, na dúvida é p'ra cima!"




7 de junho de 2016

Foi o próprio Paul Michel quem citou...


"O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova..."

Confiança, Torga Miguel


(10 junho 2016 - Lisboa/Fátima - 144Km)


(Próxima 6ª feira estaremos a sair de Lisboa: ele a correr, eu de carro, direitos a Fátima. Será esta mais uma etapa na preparação do grande desafio do ano Tor des Geants: para ele a correr, para mim a aturar o seu mau feitio).

31 de maio de 2016

IV Trail da Pampilhosa da Serra


Já não preciso dizer mais nada, pois não?

Tem trail, tem paisagens lindíssimas, tem a natureza no seu esplendor, tem banho no rio Unhais, tem (paletes de grades de) mines frescas, tem porco assado, tem arroz de feijão, tem grupos de danças e cantares, tem os bolos que a malta do norte costuma trazer (aqueles que nos roubam sempre o caneco!!)...

...Tem gentes da terra, pá!! Basta isso!!



Mais um ano, mais uma edição em que vou desafiar os meus amigos a correr pela SPEM!

Está tudo aqui para tratar das inscrições.

25 de maio de 2016

Material obrigatório no trail

- Autor: Miguel Catarino -

E o apito? E as calças impermeáveis com o sol que se prevê? E a t-shirt de manga comprida? E a lanterna? E...
Preciso mesmo?
Tanta pergunta!
O que me assusta é que quem faz estas perguntas, não tem noção absolutamente nenhuma do que é a montanha. Ou se tem, tem muito pouca.
O pior é que são cada vez mais a questionar e isso assusta-me. O Trail está a crescer e muitas pessoas passam de correr na marginal para ir correr para a montanha sem terem noção que quando as coisas na montanha correm mal, é tudo muito pior.
O material obrigatório devia chamar-se: Material que eu vou precisar se me perder na montanha e tiver de pernoitar por lá, material que vou precisar se partir um pé e tiver de ficar horas à espera de um resgate, material que tenho de ter para se as condições climatéricas mudarem drasticamente conseguir sobreviver.
Normalmente as coisas correm bem e tudo acaba bem e as pessoas perguntam o porquê de ter carregado tanta "tralha" para nada. Pois é. O pior é quando corre mal!
Tenho imensas histórias na montanha, mas conto uma muito simples.
Num TrailCamp, saímos do Rossim com muito bom tempo. Sorridentes, subimos pelo vale glaciar a caminho da Torre. Ao chegar lá acima, as condições mudam drasticamente e de repente parecia que estávamos no inferno.
Ventos fortíssimos, muito frio e visibilidade reduzidíssima. Todos começamos o dia descapotáveis e todos tivemos de utilizar o que tínhamos na mochila (o tal material pesado e chato que incomodou na parte que estava sol). Foi o impermeável, as calças, o gorro, as luvas,...
A navegação até ao Rossim, pelo maciço central, foi feita por gps. Não se via mariolas, nem trilho, nem nada.
Se fosse durante uma prova, ou as marcações estavam de 2 em 2 metros, ou metade da malta ia-se perder.
Perder? Ok...qual é o stress?
É mesmo muito! Só quem já passou por isso é que sabe.
Lembrem-se que caminhos para Norte existem milhares, mas muitos passam em precipícios!
A melhor decisão é parar e esperar que a situação melhore.(caso não tenham gps)
Parar implica arrefecer muito, e em condições severas todo o material vai ser pouco.
Pode acontecer o mesmo à espera de um resgate. (lembro-me de um tipo no CCC que depois de torcer um pé, quase morria de hipotermia à espera que o socorressem, mesmo embrulhado na manta térmica. Valeu alguns atletas q o auxiliaram)
No meio da montanha um resgate demora horas! Horas!
O que eu acho que devia ser boa prática, pode parecer utópico, mas fica o conselho:
- Antes de se aventurarem em provas de trail, todos deviam fazer um curso de montanhismo, ou vir a um dos nossos TrailCamps.
Tenho a certeza que as perguntas do material obrigatório e os porquês acabavam.
- Estudar muito bem o sítio para onde se vai correr é obrigatório. Saber ler cartas militares, perceber a geografia do terreno que vamos pisar, permite-nos estar mais à vontade. Responder a perguntas simples como por exemplo: Quando estiver a correr em direção à torre no planalto central, é suposto o sol estar onde? Na minha esquerda, de frente, da direita? Vou cruzar linhas de água? Quantas? Etc.
- Levar sempre, repito, sempre, um gps. Se não for com o track da prova inserido( o que aconselho caso até tenham dúvidas na marcação) pelo menos que grave o track que estão a fazer. A função trackback já me safou muitas vezes!
- Caso possam (é um bocado caro) levem convosco um Spot. Eu quando vou sozinho, considero-o o meu melhor amigo. ( o spot é um aparelho que permite pedir socorro e localizarem-te em locais onde não podes utilizar o telemóvel)
Perceber que a montanha é um local fantástico, mas que de repente pode ser a nossa última morada, é ser sensato.
A montanha tem riscos. Temos é de ter consciência deles e tentar minimizá-los.
Havia muito mais a dizer. Eu já passei por muitas situações de risco e continuo a aprender. Tenho tido tb alguma sorte nesta aprendizagem.
Não sou nenhum anjinho!

Espero que este post (para os q tiverem pachorra de ler tanto) permita as pessoas que tanto perguntam, pararem para refletir um bocadinho. Se no final disserem que faz sentido, fico contente.

(Não retiro uma vírgula.)

9 de maio de 2016

Próxima paragem: OCC


Acabou-se o período de recuperação MIUT e esta semana inicia-se a preparação para a OCC. Tive apenas duas semanas para respirar do alívio que é viver espartilhada entre família, trabalho e plano de treinos. Por vezes falta-me o ar.

Já aqui me queixei algumas vezes do quão difícil é, por vezes, fazer esta gestão. Mas o desafio de ter uma vida preenchida e ativa passa também por isso: por ajustar as nossas tarefas e responsabilidades diárias à vontade de querer correr.

Nestas duas semanas de ronha (chamemos-lhe assim!) aproveitei para fazer alguns disparates gastronómicos. Matei saudades de umas quantas porcarias que gosto de comer (e beber!) e que em momentos de preparação para um desafio tento evitar.

Nos finais de agosto voltarei àquela que é considerada a Meca do trail mundial para voltar a fazer a prova que, até hoje, mais significado teve para mim. Porque foi a minha primeira ultra, porque foi logo em Chamonix num ambiente absolutamente fascinante, porque me senti mesmo desafiada, porque estava nervosa, porque não sabia MESMO se iria conseguir. Nesse ano tive sempre ao meu lado o Paulo Soares que claramente decidiu acompanhar-me (ainda hoje desconfio que foi a mulher dele que o obrigou!). Ter alguém que vai ao nosso ritmo, que corre quando nós corremos, que anda quando nós andamos, que vai calado quando nós não falamos… Ajuda muito.

Outro fator que na altura também ajudou foi a meteorologia. Estava um dia magnífico. Não estava sequer frio, nem nas cotas mais altas, estava calor, sol, um dia lindo.

Às vezes tenho a sensação que este ano tudo pode ser diferente, para pior. Irei sozinha e pode estar um tempo agreste. Por outro lado, o facto do Paul Michel não ir fazer prova nenhuma (vai aproveitar a estadia e vai treinar) pode ser um ponto a meu favor. Diz que vai fazer a minha prova ao contrário (da meta em Chamonix rumo à partida) e vai ao meu encontro e que depois regressa comigo.

Avizinha-se um período de treino mais intenso, portanto. O treino para a OCC vai ser mais duro que o treino para o MIUT. A primeira é muito mais exigente, tanto em quilómetros mas sobretudo em desnível positivo: que é o triplo. Em Agosto esperam-me 3300m D+. Lembro-me bem das subidas intermináveis. Lembro-me de subir várias horas. Devagar, mas durante muito tempo.


Resta-me dar o meu melhor em treino para que possa desfrutar o mais possível em prova. É esse o meu grande objetivo. E, claro, se conseguir baixar das 12h39m30s também me fazia sorrir mais um bocadinho.


29 de abril de 2016

Descrevo o MIUT (Maratona) como o fiz: às postas e em pensamentos

Até ao Pico do Areeiro

Comecei agora a prova e estão a doer-me os músculos. Não é bem dor, não comeces já com as merdinhas das dores. Sinto os músculos presos. Devia ter feito um treino leve ontem ou antes de ontem, ajudava a soltar os músculos. Já vou na cauda do pelotão como de costume. Mas não me interessa, sei que no fim vou ultrapassar imensa gente. É sempre assim. A minha estratégia é conhecida como “de trás para a frente”. E resulta sempre. No final farto-me de papar gente. Ahahahah… Gentinha tonta… Olha para isto, vai tudo a abrir… Quero vê-los a subir para o Poiso.
Ena, tanta comida. Mas não tenho fome. Ainda só fiz 4,5km e esta subida não foi nada de especial. Mas é melhor comer. Vou atacar a marmelada e as laranjas. Tau! Já está.
Já me disseram que agora é ligar o turbo. É sempre a descer. Quando me dizem isso desconfio sempre. Deve ser, deve… Já aprendi a lição que há gráficos e conversas enganadoras.



Do Pico do Areeiro até Ribeiro Frio

Que troço porreiro, pá… Tem dado para correr. Ali atrás ainda apanhei uma descida muito inclinada e por isso fi-la devagar. Já sabes, não é? Patareca como és, o melhor é ir devagar.
Além disso, esta malta é porreira, tem dado para conversar com algumas pessoas. E agora começam a passar os primeiros atletas da prova dos 115km. Impressionante: aqui já trazem cerca de 80km nas pernas e ainda têm a distinta lata de passar por mim a correr e a bom ritmo. Brincalhões!
E eu? Olha, para já sinto os músculos mais soltinhos. Ufa… Mas começa a doer-me o joelho. Estranho… Nunca me doeram os joelhos. Só o meu piriforme (o tal que me fez pensar que era ciática, lembram-se?). Até agora ainda não deu sinal. Até estou com medo de me lembrar dele.
Cabrão do joelho. Era o que me faltava agora…
Aqui no abastecimento já há malta a desistir. Uma, da minha prova, vem a vomitar. Outro, da prova dos 115km, vem exausto. Pois… Treinasses!
Mais marmelada, mais laranjas e agora frutos secos. Dizem que a subida é dura.
Vamos lá a ela. E o calor que está?

De Ribeiro Frio até Poiso

(Agora é a subida mais difícil, dizem).
Isto é que é uma subida difícil? Esta gente sabe lá o que é subir… Ou então os treinos deram resultado. Na boa! Que fixe, pá. Estou a fazer isto nas calmas. A continuar assim vou fazer um tempo-canhão. O Paul Michel vai ficar orgulhoso.

Do Poiso até Portela

Sempre a descer! Um autêntico massacre, o chamado rompe pernas. E como os treinos a descer foram poucos, claro que estás a pagar a fatura. Chego aqui à Portela com dores no joelho esquerdo. Não saio daqui sem tomar um paracetamol.
Olha que surpresa! A pequena Babá (5 anos), a tia Adosinda e a prima Paula. E de megafone em punho a chamar-me, imaginem… MACARENA
A pequena Babá tem consigo três balões que me quer oferecer mas explico-lhe que ainda falta muito para chegar à meta e que não os podia levar. Abracei-as, apesar do meu cheiro nauseabundo, e sigo a pensar que ainda me faltavam três postas para acabar a prova.
Aqui, na Portela, estão a desistir vários atletas. Todos se queixam dos joelhos e das unhas dos pés.

Da Portela até Larano

Saio da Portela e apanho agora o percurso mais corrível da prova. Que frustração! Apanho agora terreno bom para correr e não consigo. O joelho está a massacrar-me. Não acredito nisto.
Km30. A tão falada descida do Larano. Bem me disseram que aqui é que era o verdadeiro rompe pernas. Sem dúvida. Quem é que se lembrou de nos enfiar aqui? Esta mania ou moda de no final das provas nos enfiarem em trilhos técnicos, a roçar a aventura tipo Indiana Jones… Começa a deixar-me furiosa. E olhar para o meu lado direito??? Se alguém cai aqui… A atrapalhar mais a coisa já oiço a malta dos 115km a vir aí com as pressas…. Bonito!
Sim, sim, sim!!! Eu chego-me para o lado, calma!...
Se não fossem estas duas madeirenses a fazerem-me companhia… Ainda me rio com o sotaque e as piadas. Uma acabou de dizer que “se lhe parou o relógio. E que não sabe que pé é que tem de pôr…” Opá, que duas figuras! Comigo, três!

De Larano até Ribeira Seca

Novamente uma excelente parte do percurso para correr. Mas não consigo. Vou enviar-lhe um SMS: “Km 36. Toda lixada. Trekking até à meta. Não me chateies” E ele não me chateou.
Lembram-se da conversa do trás para a frente? Pois… Desta vez, ardeu. Aqui onde seria suposto estar bem… Estou feita num oito. Estão a passar por mim vários atletas. Que frustração… Era aqui que podia ganhar terreno, que podia ganhar posições e que me sentiria bem e feliz rumo à meta… E não. Vou a passo.

De Ribeira Seca à Meta

Já aqui estou. Vou terminar. Mas não como gosto. Vou terminar com dores, vou terminar a andar, vou terminar desmotivada. Sem apetite nenhum para me voltar a meter noutra. É aqui e agora que dou razão àquelas pessoas que não percebem o que venho fazer à Madeira. Venho aqui estafar-me quando podia estar sentada na esplanada a beber a tal Coral e a comer as tais lapas enquanto esperava pelo Paul Michel. Essas pessoas não deixam de ter razão, de alguma forma.
Estou a avistar Machico, lá em baixo. Ainda tenho de descer. Até lá abaixo.
Estou a cortar agora a meta. Oiço aplausos. São para mim. Consegui cortar a meta.

Da meta a Chamonix

Não me apetece correr mais. Não me apetece ir a Chamonix. Aqui, hoje e agora. Acabou-se.
Vou tomar banho, vou jantar, vou esperar pelo Paul Michel na meta e depois vou dormir. Até amanhã.
Afinal, regresso da pérola do Atlântico desconchavada. Não só do corpo, mas também do espírito. Que grande coça…


Machico, 23 de abril de 2016

 
 9h24m | 43km
  


18 de abril de 2016

MIUT 2016

Próximo fim de semana estamos na Madeira.

Paul Michel irá fazer o MIUT (115km; 7000D+) e eu a Marathon (43km; 1100D+).

Sinto-me bem, sinto-me com ânimo, sinto-me bem preparada.

A seguir à prova quero beber umas Corais, comer lapas e caramujos. Assim, por esta ordem de grandeza.




No dia a seguir à prova quero beber mais Corais, comer mais lapas e mais caramujos. Vou comer até desmaiar.

Depois da Madeira o meu foco vira-se para Chamonix.

Neste dia recomeço a comer erva e palha.

No dia a seguir a este comerei ainda mais erva e mais palha. E assim, sucessivamente, também por esta ordem de merdeza.


Desejem-me sorte, sim? Não me apetecia nada vir de lá, da pérola do Atlântico, toda desconchavada.