24 de março de 2015

Almeirim 1 - Resto do país 0


Deixem-me recuar 15 anos para vos explicar o que foi o trail de Almeirim.

Casei no Ribatejo. Na igreja Nossa Senhora da Conceição em Muge. Na altura fazíamos questão que o catering fosse típico da região e por isso escolhemos uma empresa local que nos prometeu o melhor dos banquetes. A minha mãe e a mãe do Paul Michel andavam sempre preocupadas com a parte gastronómica da festa, pois queriam, claro, que tudo fosse perfeito. Sempre que nos reuníamos com a senhora responsável pelo catering as nossas mães diziam vezes sem conta e sempre a mesma coisa:  “veja lá… Não queremos que falte nada. Por favor, que nada falte aos convidados, nem comida nem bebida. E veja se tudo está impecável. Nem que seja preciso pagar mais, mas assegure que nada falta”. Todas as vezes que estávamos com essa senhora as nossas mães repetiam esta ladainha.

Até que um dia – e porque a senhora já devia estar cheia de as ouvir (e com razão, até eu!) – responde-lhes assim: “as senhoras já alguma vez vieram a um casamento ao Ribatejo?” Ambas acenaram com a cabeça em sinal negativo. “Bem, me parecia…Fiquem descansadas.

Bom, quando duvidarem se em Almeirim as marcações estarão corretas, se os abastecimentos serão de qualidade, se a sopa da pedra estará deliciosa, se as bifanas chegarão para todos, se a organização estará impecável nas suas obrigações… Eu pergunto: “Alguma vez fizeram o trail de Almeirim? Bem, me parecia… Fiquem descansados.

Começando pelo fim: tinha o dorsal para os 30km. Fui avisada de antemão para não os fazer (sim, Mister, pela milésima, octogésima vez tens razão!) A recuperação do empenho canarinho ainda se fazia sentir e o meu joelho esquerdo tinha estado, até à semana anterior, a dar sinais de querer descanso. Ainda pensei em trocar o dorsal, mas… Pensamos sempre assim: “epá, vamos lá tentar, nem que vá (ainda mais) devagarinho”.

Foi o que fiz. Tentei. Mas só fui até ao km19. A partir do Km14 comecei a acusar algumas dores no joelho e a partir daqui já pouco ou nada corria. Aliás, do km16 até ao abastecimento dos 18,5km já só consegui caminhar. E quando assim é não estou ali a fazer nada, só a piorar a situação. Mas acreditem que desta vez não fiquei nada triste. Só tive pena de não ficar a conhecer o resto do percurso dos 30km.



Este trail adivinhava-se muito rápido (coisa que não sou, nem nunca serei) pelo relevo do traçado. Quem dá o que tem a mais não é obrigado. Em Almeirim não esperam grandes e longas paredes. Tivemos algumas paredes, mas curtas. Ainda assim também difíceis. Era um trail muito ‘corrível’ num piso muito acessível. Dizia alguém que entretanto me acompanhava na prova: “este trail é para atletas de estradas”. E era.

Como dizia: tive muita pena de não acabar o trail pela prova em si. Esta prova vale muito a pena. A organização esteve sempre bem, desde o levantamento do dorsal, que se fez sem problemas, passando pelos abastecimentos que eram soberbos (até havia vinho da região e chouriço do bom!!) até ao almoço no final. E também havia tomate com sal. Prova onde haja tomate com sal tem o meu coração derretido.

As placas humorísticas ao longo do percurso também ajudaram a aliviar a tensão. Algumas delas bem engraçadas, outras nem por isso: “prepara as unhas” – dizia uma delas . Vocês, por acaso, sabem a quanto é que está a manicure, sabem? Confesso que a esta não achei graça.






O almoço foi servido nas instalações das escolas, na cantina, onde até aqui tudo funcionou muito bem. Sem grande confusão, havia uma fila de tabuleiro onde cada um retirava uma sopa (ou duas, ou três se quisesse), uma bifana e um doce regional, o Pampilho. A seguir servia-se de vinho tinto ou branco da região. Eu e o Paul Michel fizemos três brindes à nossa saúde. Aqueles copitos de vinho estavam a cair que mais pareciam água fresca no deserto do Sahara.

Um pequeno à parte, pela primeira vez, bebi vinho nos abastecimentos. Disseram-me que o vinho da região tinha propriedades únicas que favoreciam o desempenho dos atletas. Era uma espécie de doping autorizado! Quando dei por terminada a minha jornada não o fiz sem antes brindar com o atleta vassoura, o Francisco (a quem mando daqui um grande abraço de agradecimento). Fizemos um brinde à nossa saúde e lá tivemos de beber de uma golada só um copito de vinho branco.

A medalha, que não recebi, mas o Paul Michel sim, era de uma originalidade ímpar: uma pequena colher de pau a simbolizar a colher do monge que faz a sopa da pedra. A isto eu chamo fazer bem e diferente.

Não esperem o maior dos empenos neste trail, na lezíria ribatejana é difícil arranjar desnível, mas o que o trail de Almeirim vos pode proporcionar é uma prova bonita, onde poderão conhecer esta zona e desfrutar dos encantos gastronómicos, paisagísticos e humanos da região. Em Almeirim sentimos que se dedicaram de corpo e alma à organização do evento e isso vê-se nos pequenos detalhes e mimos que nos oferecem ao longo do dia. Servirem-nos uma sopa e dizerem-nos logo: “venha repetir, menina, vê-se pela sua cara que correu muito! Sopa como esta não há!...” revela que nos estão a tratar com carinho.

Por isso, voltarei a Almeirim. É um trail à porta de casa, muito bem organizado e que merece que cada atleta retribua com a sua presença toda a dedicação e carinho que a organização empregou neste evento. Quando se faz assim, faz-se bem! Parabéns, gostei muito!







 Obrigada Almeirim!



P.S. – Acho que sei o segredo desta prova ter sido um sucesso: teve na organização gente que corre. E isso, meus amigos, faz toda diferença. Fica a dica. 

26 comentários:

  1. Muitos parabéns ao casal maravilha! Boa recomendação, para o ano tentarei ir :)

    ResponderEliminar
  2. Então a Macarena casou em Muge e não me disse nada :)
    Pois eu vivo em Muge desde 1990 :) E vinha para aqui nas ferias e fins de semana desde a minha infância.
    Claro que em Almeirim um prova só pode ser perfeita em particular se tiver os homens dos 20 km de Almeirim na organização.
    Rápida recuperação do joelho e de tudo o resto.
    Beijinho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já andava para me meter consigo sobre Muge, estava à espera da oportunidade. Calhou agora... :)))
      Aqui a Macarena casou em Muge e ainda hoje é feliz! Essa terra tem o dom de fazer as pessoas felizes! E é uma terra de muito boas gentes. E de grandes atletas!

      Beijinhos e obrigada Jorge!

      Eliminar
  3. Uma prova de atletas para atletas....sucesso garantido!!!
    Beijinhos

    P.S. Anotar: vinho nos abastecimentos!!! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já foste a um onde havia Minis!! ;))

      Eliminar
  4. Epah que grande comentário, até me emocionei a ler isto! Muito obrigado Anabela! Como eu disse no meu post, sei bem que estes elogios não são por simpatia, se não estivesses satisfeita com alguma coisa eras a primeira a dizer por isso ainda lhes dou mais valor. Foi um prazer receber-te a ti e ao Paulo na minha terra e só tenho pena de não ter estado mais tempo convosco. De certeza que nos havemos de ver por aí. Muito engraçada a história do casamento, e muito real também! Realmente, o que não pode faltar é comida e bebida! Ou como se diz por aqui "comer e buer!" eheheh Espero que estejas melhor do teu joelho. Beijinhos e um abraço para o super Paulo, que fez uma prova espectacular!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. São elogios merecidos, Filipe! Para quem se esforçou e trabalhou. Caso alguma coisa tivesse corrido menos mal, é óbvio que te diria até para que pudessem corrigir e melhorar numa próxima edição. Mas é como disse e repito, vocês não têm nenhum segredo: simplesmente também são atletas e sabem o que é correr uma prova. Sabem quais as necessidades dos atletas. Aliando isso às características dos Ribatejanos em receber bem... Está aí a fórmula mágica!

      Beijinhos

      Eliminar
    2. Eu não sou ribatejano mas gosto de receber bem os convidados....heheheh (Membro da organização do trail de almeirim david clemente!!)

      Eliminar
    3. David Clemente: o monge do abastecimento, certo?
      Abraço e obrigada!

      Eliminar
  5. Mas alguma vez duvidaste de ribatejanos?!? (ih ih ih)

    Não fizeste tudo mas os 2/3 deixaram-te feliz e isso é que conta, mais do que cortares a meta sem alegria.

    Beijinhos e continuem a divertir-se:)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca!! Grande terra, boas gentes!!
      É isso, João. O que fiz soube-me bem e fi-lo de cara alegre. Mas do que fiz seria tortura.

      Beijinhos

      Eliminar
  6. Não sabia essa parte de ser um trail acessível para pessoas de estrada! Epa para o ano vou a Almeirim está decidido! E há-de ser o meu primeiro trail :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Vitor, se é para te estreares em trail, Almeirim é uma excelnte escolha.
      Beijinhos

      Eliminar
  7. Grande descrição, goste de a ler... e quando é bem escrita...
    Parabens como a descreve e como enaltace o trail de Almeirim, da minha parte, como membro da organização em off, o meu, nosso obrigado.
    Para mim foi um prazer acompanhá-la, só foi pena não a ter levado até ao fim... mas às vezes temos que tomar certas decisões, algumas bem dificeís, mas o melhor para nós!...
    Desejo-lhe as rápidas melhoras e boa recuperação e até... qq prova, por ai no nosso Portugal... À aqule brinde teve um sabor especial... Na companhia do Monge.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Francisco, ainda bem que o "apanho" aqui. Agradeço-lhe toda a sua atenção, paciência e preocupação.
      Sem dúvida que fiz bem parar. Os últimos kms só a nossa animada conversa me distraía do incómodo que sentia. Já pouco conseguia correr. Fiz bem ter ficado por ali. Para o ano acabo! :)
      Muito obrigada por tudo e tudo a correr bem na MIUT!

      Eliminar
  8. Respostas
    1. Confirma-se Marina! É mesmo assim!
      Abraço

      Eliminar
  9. E agora fiquei aqui a roer-me de inveja por ter faltado a este tão enigmático trail!!!!!
    Para o ano não faltarei!!! Disso podem ter a certeza :D

    Quanto a ti cara amiga... tu dá a esse joelho sopas e descanso.... é o melhor remédio!!!
    Mas tu volta rápido que a malta gosta é de te ver nas corridas :D

    Saudades tuas pah já não te vejo à séculos!!

    Beijinhos grandes

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Martinha, para o ano aposta neste, vais gostar.

      Quanto ao joelho, vou dar-lhe mimos por uns dias. Consigo correr mas curtas distâncias, vou apostar mais na bicicleta (coisa que odeio, mas vai ter de ser).

      Depois da Páscoa marcamos um treino no nosso quintal, boa?

      Beijinhos

      Eliminar
  10. Pena não teres concluído esse trail mas primeiro está a nossa saúde, eu sei que isto é só conversa para o ar, eu também já desisti numa única prova e sei bem o que me custou abandonar. Mas estou aqui para te dar aquela força extra!!! Vamos lá Anabela ânimo e para a frente que atrás vem gente!!! Abraço para o Paul e um enorme abraço para ti. Até á PAMPILHOSA...ESSE É PARA ACABAR!!!!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Já fiquei mais triste por não acabar uma prova. Nesta percebi mesmo que não dava e que não tinha sido por erro meu. O único erro foi não ter ido logo para a prova mais curta.
      Na Pampilhosa lá estaremos e para acabar, sim!! Com a t-shirt mágica! :)
      Muito obrigada Carlos!

      Eliminar
  11. Ana,
    o importante é que vc fez o seu melhor,forçar e depois ter uma lesão significativa não é bom.
    Parabéns ao casal amigo!!!
    Abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada Jorge!
      Já tenho cabeça suficiente para não me deixar ir na emoção. A saúde primeiro.
      Abraço amigo

      Eliminar
  12. Anabela
    Gostei de te ver. O importante é que fiques bem para nos encontrarmos brevemente numa prova qualquer.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Inês, claro que nos havemos de voltar a encontrar.
      Bons treinos para ti rumo à Estrela! ;)
      Beijinhos

      Eliminar