27 de julho de 2015

III trail da Pampilhosa da Serra e a SPEM

Ora viva caríssima/os!!

Regressada de férias é tempo de vos explicar o que se vai passar no trail da Pampilhosa.

Existe alguém que é um verdadeiro embaixador de uma causa. Não há corrida que ele faça que não use a sua t-shirt mágica. Chama-se Carlos Teixeira e em tempos desafiou-me a vestir também esta t-shirt. Aliás, o desafio foi tão longe que me disse para a levar até à Transgrancanária. Assim o fiz. Lembram-se?



Já vos tinha aqui falado da Em'Força e da sua causa. Quem quiser aliar o gosto da corrida ao gosto de ajudar tem aqui uma oportunidade.

Mas voltando ao trail da Pampilhosa. Entre mim, e os dois Carlos (o Teixeira e o Cardoso) lembrámo-nos de fazer uma angariação de fundos no trail da Pampilhosa, visto ser este o trail onde o Carlos, o Teixeira, se iniciou no trail e onde um grupo de amigos vindos pela mão do Carlos, o Cardoso, vem até aquela bela terra desfrutar de um evento que, apesar de nem sempre correr bem, tem no final uma forte componente de convívio.

Assim, o desafio deste ano é convidar os participantes a adquirir a t-shirt (mais informações ver o site da SPEM) que custa apenas 10€ e ficam com uma t-shirt técnica que poderão usar noutras provas e dedicar, simbolicamente, os quilómetros que fazem à causa ou então no dia da prova contribuírem com o que quiserem.

Mais informações sobre esta iniciativa vejam aqui.

Desde já agradeço e conto com a vossa ajuda, nem que seja 1€.




7 de julho de 2015

40 anos de Anabela

No meio de corridas entre montes e rios ainda tive tempo de fazer uma festa de aniversário de arromba!! Como é que eu tinha tempo para treinar? Impossível.

Agora a sério. Fiz 40 anos! Queria uma festa que assinalasse a data. Pedi ajuda a amigos e a uma empresa que organiza eventos.

Foi um misto de surpresa e mais-não-sei-o-quê!

Quando lá cheguei tinha um trono como o meu sapatinho voador!

  


(Já) é impossível imaginar a Anabela sem corridas!

Agradecimento especial à A2 - De Coração pelo empenho e dedicação na organização do aniversário.


Afinal de contas não temos de andar na estrada da vida suados, a cheirar mal e com t-shirts técnicas!




Só ficou a faltar ali umas LaSportiva, caramba!! 


 O meu pódio dos 40 anos!

 Não faltou a hidratação. Abastecimentos TOP!

Abraço a todos vós que também fizeram parte destes últimos anos da década dos meus 'intas'. Que na ultra-maratona da vida as subidas não nos tirem o fôlego... Se for preciso abrandamos, mas nunca paramos!

1 de julho de 2015

Cortina trail 2015 - o looping

[Aviso: texto longo e com linguagem suscetível de ferir sensibilidades.]

A minha referência comparativa para esta prova sempre foi a OCC e nunca a Transgrancanaria. Cortina Trail seria o mais próximo da OCC mas num registo mais fácil.

Mas quinze dias antes fui estudar o gráfico e percebi coisas que ainda não tinha reparado com atenção. Esta prova tinha subidas muito mais inclinadas, algumas até curtas mas muito inclinadas e tinha um outro detalhe muito relevante: cerca de metade da prova era feita SEMPRE acima dos 2000m de altitude, conforme podem (re)ver no gráfico.



Ora este “detalhe” era para mim um elemento de preocupação. Por isso na véspera lá fui eu de teleférico até aos 2300m aclimatar. Eu e o Paul Michel arrancámos de Cortina ao meio-dia e fomos almoçar ao refúgio Faloria. Almoçámos lá, passeámos um pouco e depois ele regressou a Cortina para arrumar a mochila e dormir uma sesta, já que a sua prova era nesse dia às 23h.






Voltando ao gráfico. Começo a comparar uma prova com a outra e vejo que nesta tenho duas zonas de terreno técnico (na OCC não havia nenhuma). Pensei que a menor distância e o menor desnível de Cortina, afinal não eram suficientes para fazer desta prova um desafio mais fácil face à OCC. E foi com este pensamento que acordei no sábado: “vais fazer uma prova igual à OCC e com muito menos capacidade física. Por isso vais penar, menina!

Partida, largada, fugida! Ao som da música oficial da prova partem cerca de mil atletas, e ainda dentro de Cortina, em pleno alcatrão, começo a sentir-me indisposta. Efeitos de altitude? Ainda era cedo, creio. Digestão? Pequeno-almoço ainda pesado no estômago? Não interessa. Segue e de cara alegre!



Até ao km10 era sempre a subir. Sem espinhas, não há que enganar. És lenta a subir, vai ao teu ritmo, cuidado com as pulsações e hidrata bem. Até ao primeiro abastecimento, em Malga Travenanzes foi um percurso cuja dificuldade estava calculada e interiorizada. Ou seja, sabia que iria subir muito, por isso não houve surpresas. Aqui, neste ponto de abastecimento, estava quase a 2000m. Fui fazer xixi e atestei os reservatórios da mochila: misturei o meu isotónico, chocalhei a mochila, enchi os flasks de água e… Siga. De cara alegre!

Olho para o gráfico, que estava no dorsal (nesta prova fartei-me de olhar para o gráfico, não sei porquê), e vejo que a seguir a este abastecimento as subidas continuavam até Col dei Bos (+-2300m). A partir daqui a prova junta-se à grande Lavaredo Ultra Trail e começam a passar por mim atletas de grande porte, se é que me faço entender.

E foi também a partir daqui que a prova se desenhou. Mas que puta de subida: técnica, difícil e com as condições atmosféricas a piorar. Aqui tive de vestir o impermeável. Quase que vestia a t-shirt térmica, mas lá me aguentei. Chuviscou um pouco e continuámos a progredir no terreno com alguns, embora pequenos, mantos de neve a ladearem-nos o percurso.

Minhas Sras e Meus Srs. apresento-vos o calvário

A descida até Col Galinna faz-se num misto de ansiedade (por descidas, claro) e receio, já que aqui começo a sentir dores musculares. Senti que o corpo já estava muito castigado e que agora que podia dar mais gás mas não tinha as forças necessárias para tal. Chegada a Col Galinna pensei: “pelo gráfico estás sensivelmente a meio da prova. Mas será que estás MESMO a meio da prova?” Nunca fiando.



Os abastecimentos eram premium, variados e de muita qualidade: caldo quente com massa, tostas com Nutella (tantas, meu Deus, tantas que enfardei!), tostas com doce, queijo, chouriço, pão, frutos secos, Red Bull, água, coca-cola, isotónico, sal, bolos variados, fruta em calda de fruta. Nada a apontar.

Aproveitei este abastecimento para relaxar um pouco as pernas. Comi sentada, massajei um pouco as pernas, respirei fundo e olhei para o gráfico. Vá, moça, siga! Cara alegre!

Até aqui eu levava cerca de 5h e pouco de prova. De repente apercebo-me que tenho apenas, mais ou menos, 2h e meia para chegar a Passo Giau, local da barreira horária. “Mas tenho de fazer mais ou menos 6km nas tais 2h e meia. Com um subida filha da puta pelo meio. Já estou cansada. E está um sol do catano. E estamos no pico do calor. E sinto que estou assada na virilha. E… E merda para isto! É sempre a mesmo merda, foda-se! Lá ando eu aqui na luta pelo nada!

Um, dois, três: GO! Não para. Não para. Não para, senão morre!
Caríssimos e prezados leitores, mas que puta de subida com uma tosta de calor inqualificável. O meu relógio marcava 31ºC. Não satisfeita, vejo um refugio ao longo, a cerca de 2km (ou nem tanto) e meto na cabeça que o abastecimento era lá. Embico nessa direção mas reparo que à medida que me aproximo não vejo vivalma. “Já me enganei. Estúpida de merda. Loira burra! Volta para trás.” Voltei. Tinha-me enganado. Culpa minha, porque o percurso estava irrepreensivelmente bem marcado.

Aqui começo a sentir falta de forças. Devia ter comido mais. Será? Mas eu comi tanto pão com Nutella e tanto caldo com massa. Olho para o relógio e o tempo corria mais que eu. Chego a uma encruzilhada onde está um casal membro da organização a dar indicações para virar à esquerda. Avisto, ao longe o próximo abastecimento. Se o avisto é porque está perto. Pensei. Perguntei ao casal quanto tempo ou distância era até ao refúgio. Disseram-me apenas 2km e depois largam esta posta: “They’re just 15 minutes. Go. you can do it”.

Primeira vez que começo a chorar (nesta prova chorei três vezes). “Vais morrer na praia. Mas não desisti. Podes morrer, mas morre com dignidade, não atires já a toalha ao chão, foda-se! Corre, pá!”
Comecei a correr. Sim a correr, leram bem. Apanho terreno técnico e conforme contornava as pedras e saltava por cima de algumas apanho também pequenas subidas que eram como que empurrões para trás. Aqui começo a gritar com o mundo. “Haveria necessidade de apanhar agora e logo aqui subidas, foda-se? E pedras grandes para andar tipo salta-pocinhas? Deixem-me em paz, ao menos aqui deixem-me correr, deixem-me tentar, seus merdas!

Olho para o relógio e eram 15h26m. Eu estava a 1km, talvez nem isso. Mas apanho uma descida irregular e já me doía o corpo todo. Chego ao abastecimento, passo no controlo, aquela merda apita e atiro os bastões com toda a raiva para chão. Olho para o relógio: são 15h38m. Passaram oito minutos da barreira. Olho para o céu, peço desculpa e dirijo-me ao “controller” e pergunto: “passei oito minutos depois, tenho de ficar aqui, não é?” Ele olha para mim e diz-me: “nós nunca barramos ninguém, cada um é livre de seguir ou não, a montanha é livre. Este tempo serve apenas para ter a noção que dificilmente termina a prova no tempo limite”.

Foda-se! Foda-se! Foda-se!” Já nem comi. Apanho os bastões, arranquei dali para fora e jurei a mim mesma que terminava a prova. Até porque a partir dali era quase sempre a descer (era, era…). Siga, miúda! E de cara alegre!

Quase que desfalecia para chegar ali, morri ao passar oito minutos depois do tempo e agora tinha de renascer pois esperava-me uma meta lá em baixo em Cortina! E eu não a ia deixar escapar!

A partir dali começo a entrar numa zona de prado, mas por pouco tempo. Passados uns dois quilómetros aparece-me… Adivinhem? Uma subida. Ou melhor um calvário. A partir desta fase da prova todas as subidas eram calvários, a minha progressão era muito lenta. Além de muito íngremes eram subidas com muita pedra, o que fazia que por várias vezes resvalássemos o pé para trás. Era notório o cansaço dos atletas da prova grande, que nesta fase me ultrapassavam. Sim, estes ainda me conseguiam ultrapassar. Ia sempre a controlar o relógio. Via as horas passar mas os quilómetros não.

A chegada a Forc Giau faz-se já com uma temperatura mais fresca. Neste alto temos um abastecimento- surpresa: chá quente ou água. Bebi dois golos de chá e pus-me rapidamente ao caminho, não há tempo para merdices zen.

Continuo a minha jornada e de repente sinto uns salpicos de água nas costas. Achei que era alguém que me estaria, por brincadeira, a borrifar, já que olhando em frente o céu estava azul e lindo. Olho para trás e qual é o meu espanto quando vejo que o céu está negro e com uma nuvem pesadíssima atrás de mim. Neste preciso momento o meu relógio apita e diz: “alerta: tempestade”. Achei aquilo tudo um exagero, mas enfim. Ainda assim, parei, tirei o impermeável da mochila e vesti-o.

Acho que nem dois minutos passaram quando os salpicos de água passaram a gotas grossas e frias. Depois disto nem quatro minutos passaram quando as gotas grossas e frias passaram a granizo. Em poucos minutos parecia que tinha entrado numa discoteca onde as psicadélicas não paravam de brilhar. Ver uma trovoada em alta montanha, a cerca de 2200m de altitude, onde todo o céu se vê e onde tudo se ouve… Acreditem, não é para meninas. Nem para meninos. Estes, muitos deles, abrigavam-se ao lado de rochas e ficavam parados. Eu sei que esta seria a atitude mais acertada mas eu não conseguia ficar ali, sabia que estava a dois, no máximo três, quilómetros do último abastecimento, em Rif. Croda da Lago. E era a descer, seria rápido lá chegar.

Desligo o telemóvel, desligo o GPS do relógio e direciono os bastões de carbono para chão. Tudo indicações que me foram dadas por quem anda nisto há muitos anos e me avisou: em caso de trovoada, tens estas três coisas a fazer. Nesta fase um atleta polaco da prova grande agarra-me o braço e diz para ficar com ele junto a uma pedra, mas eu digo-lhe que não, que prefiro ir a correr até ao refúgio e se depois for necessário, então sim, ficarei lá. Ele disse que era maluca, mas não voltou a insistir mais. O mariquinhas-pé-de-salsa ficou ali.

Segui o meu caminho, a achar que os meus filhos podiam ficar sem mãe. A lei de Murphy é lixada. A probabilidade de me cair um raio na tola era escassa, mas podia acontecer. Foi a fase da prova onde mais corri e voltei a choramingar, desta vez não de raiva, mas de medo. Corri mesmo muito, acreditem. Mas queria chegar ao refúgio. Além de estar com frio estava cheia de medo, admito. Os trovões pareciam chapas de zinco a bater umas nas outras, um som estridente que me fazia dar pequenos saltos. A acompanhar o medo tinha todo aquele espetáculo de luzes psicadélicas e granizo a bater-me com toda a força nas pernas.

Chego ao refúgio e tenho um abastecimento absolutamente maravilhoso, com tudo aquilo que eu estava a precisar: novamente o caldo de massa, tipo canja, ovo cozido (acho que comi uns quatro!), batas cozidas, chouriço, queijo, pão, bolos e as bebidas do costume (Red Bull, coca-cola, água, isotónico). Ataquei o caldo e os ovos. Estava a saber-me pela vida. E como precisava de asas bebi um Red Bull (bardamerda para a publicidade enganadora).
A partir dali é que era mesmo sempre a descer. Nove quilómetros até à meta. Tinha duas horas! “Chega, miúda, tem calma.

Lembro-me de na véspera o Diogo (que fez a prova no ano anterior) contar que a última descida da prova, caso chovesse, era chata de se fazer porque ficava muito lamacenta. O que ele se esqueceu de me contar era que além de lama, havia troncos de árvores, pedras rolantes e muuuuuuiiiiiita lama mesmo! “Ó c’um caraças, pá! Mais um massacre! Mas vá… Siga, carago! E cara alegre!

Lá vou eu na minha luta contra-relógio e desta vez os minutos passavam bem mais rápido que os meus quilómetros. Logo a seguir ao abastecimento ainda consegui correr uns dois quilómetros. O percurso passava numa zona lindíssima junto ao lago e por isso o terreno era bastante plano e em terra batida, por isso rolava-se bem, mas ali por volta do km39 começa outro inferno. Só me lembrava da Transgrancanária, mas aqui em modo molhado: muita lama e pedra. Qualquer que fosse o sítio onde colocava o pé tudo mexia. De bastões na mão, lá fui, pé ante pé, muito devagar. Com frio, pois estava molhada e a progredir assim tão devagar não conseguia aquecer. Equacionei vestir a t-shirt térmica, mas isso significava perder talvez uns dois ou três minutos. “Nem pensar, continua com frio, aguentas bem e esse tempo é precioso.

A cinco quilómetros do fim da prova oiço baixinho: ‘Mor?... Paro e olho para trás. Era o Paul Michel. Apanha-me a cinco quilómetros de terminar.

- Estás bem?
-Sim, estou. E tu?
-Também. Dá-me um beijo.
-Vai. Até já, junto à meta do lado esquerdo”.

(Hoje sei que ele quando chegou à meta disse aos nossos amigos que não acreditava que eu chegasse a tempo. Da maneira como me viu descer… "Não vai chegar dentro do limite" - pensou).

Vê-lo ali deu-me algum fôlego e alguma tranquilidade. Afinal, também se tinha safo da trovoada.

Os últimos quilómetros foram, como já devem ter percebido, um autêntico calvário. Sempre a olhar para o relógio e a ver o tempo passar. Lembro-me passar numa casa de madeira e estar uma senhora a oferecer coca-cola. Agradeci, disse que não. Voltei para trás e perguntei-lhe que horas eram (tinha medo que com a trovoada e o desligar do GPS o relógio tivesse marado). Disse-me: “são sete horas”. E faltavam 4km. Demorei 43 minutos a fazer 4km.

Faltavam cerca de 4km para a meta e o terreno começava a melhorar. Um trilho no parque natural, tipo bosque, terreno mais plano, logo mais corrível. Mas já sem forças, estava exausta. Intercalava corrida com caminhada, mesmo a descer.

Quando entro na povoação começo a avistar pessoas a aplaudir e a gritar por nós. Gritam, incentivam-nos, oferecem-nos água, coca-cola, as crianças pedem uma palmada na mão. Mas eu vinha de rastos. Um senhor ainda me disse em italiano, pelo que percebi: “então, que cara e essa? Estás a achegar à meta! Vai acabar já ali”.

Esta do ‘já ali’… Ainda tem algum parente alentejano, pensei eu. Lembro-me de chegar a uma rotunda e estar desorientada, não via as marcações. Por gentileza um condutor parou, apitou e apontou-me o caminho. Sorri-lhe. Ele retribui o sorriso e esticou o polegar como que em jeito de “boa”!

Entro na avenida principal, repleta de pessoas, ora por pessoas que estavam nas esplanadas a assistir, ora por atletas que já tinham terminado. Passo numa esplanada toda em madeira, com imensa gente a comer e a beber (ainda vi canecas de cerveja, como me apetecia já uma, caramba!) e de repente, à minha passagem, várias pessoas se levantam e gritam. Não percebia o que diziam. Fiquei muito emocionada e não contive umas lágrimas pelo rosto, o que fez com que gritassem ainda mais.

De repente oiço uma voz familiar a dizer-me: “despacha-te, carago, o teu marido está na meta e diz que tu não chegas a tempo. Pois eu cá disse: ai chega, chega! Corre, carago! Não me faças perder a aposta”. Era o Rui com os seus dois filhotes. Correram comigo até à meta, ainda me deu um empurrão nas costas que quase me fazia cair no meio do chão.

Começo a ouvir o speaker ao longe. Aproximo-me da meta e pelo tom de voz dele e pelo meu relógio terminei antes do tempo. Parecia um eco… Ainda hoje oiço:

Ten minutes before ending…


Está feita. Puta de prova. Adorei. Amei.

* * * * *

Pela primeira vez percebi o que é morrer (desanimar) e renascer. Em Passo Giau (na barreira horária) morri e desesperei por chegar oito minuto depois da hora. Um minuto depois estava a arranjar forças e motivação para enfrentar quase outro tanto de prova.

O que fiz, fi-lo em em 11h43m. Um tempo de merda, sejamos francos. Mas o que me move, como sabem, não é isso. Consegui ter a oportunidade de passear por montes, vales e rios de uma beleza absolutamente arrebatadora. Vi, conheci e falei com pessoas absolutamente extraordinárias (um beijinho Cecília, sei que não lê o blogue, mas adorei conhecer a Cecília, uma espanhola. Tal como adorei conhecer o casal britânico, o jovem polaco, a portuguesa Goreti…).

Tanto se fala no espírito do trail, pois eu acredito no espírito das pessoas. Há pessoas boas e pessoas más em todo o lado. No trail também. Quando se fala em espírito do trail significa, e ainda bem, que há mais pessoas boas a praticar esta modalidade. Modalidade esta que nos permite viajar por países fascinantes, conhecer pessoas encantadoras, ver paisagens arrebatadoras. E isto é igual para o que termina em primeiro ou para o que termina em último. Mais uma vez o único testemunho que vos posso deixar é que sejam quais forem os vossos objetivos (ficar à frente do Manuel, diminuir os tempos, terminar à frente do vizinho, dar uma abada ao colega de trabalho… Tudo legítimo) tentem alcança-los com dignidade e respeito pelo próximo, pela natureza e, acima de tudo, por vocês.

O espírito do trail sou eu. O espírito do trail és tu. O espírito do trail não anda aí aos trambolhões. Somos nós, com as nossas atitudes que o construímos.

Este ano acabaram-se os meus grandes desafios. Foram dois: Transgrancanária e Cortina Trail. 

Terminei esta prova muito feliz. Fi-la muito feliz (tirando ali um momento ou outro de maior angústia). Quero voltar! Cortina merece e eu também!


Voltarei a Cortina… Sempre, de cara alegre!



(Mais uns dias e falo-vos um pouco da prova do Paul Michel)