Quando me inscrevi neste Trail Camp tinha como objectivo fazer os 27km, mas com a indisposição da véspera e por já ter feito os 19km, não sabia se iria conseguir. Tudo dependeria de como me sentisse. Portanto, nesta manhã a minha convicção era clara e simples: vais até onde conseguires. O percurso, na sua totalidade, somava cerca de 40km, mas haveria vários abastecimentos onde estaria sempre uma viatura pronta a recolher os participantes que quisessem dar por terminado o seu treino.
Prontos para comer quilómetros!
Após o pequeno almoço a habitual foto de família.
O ambiente era descontraído e bem disposto
Damos início ao treino e ainda não se viam raios de sol. O nevoeiro intenso brindava-nos com aqueles ambientes característicos dos filmes épicos. Nós, os cavaleiros andantes, começávamos a desbravar terreno pela Serra da Estrela ao som dos chaps-chaps dos nossos pés nos riachos e ao som rolante das pedras que pontapeávamos.
Ainda neste início, e esta é uma das outras vantagens de um Trail Camp, há colegas (se me permitem que os trate assim!) que nos vão dando conselhos. A mim, por exemplo, quando percorria um terreno com pedra solta, um atleta, creio que o Nelson Graça, me diz: "Anabela, vais muito saltitante, não deves dar tanto impulso a correr, pois vais cansar-te muito mais rapidamente". Eu devia parecer uma salta-pocinhas, mas percebi e entendi muito bem o que ele queria dizer. Este meu "estilo saltitante" deve-se em grande medida à minha pouca experiência em correr em pedra solta. Não me sinto segura neste tipo de terreno, logo a tendência é quase "evitá-lo". Outra chamada de atenção, e esta feita pelo Armando, foi a minha mochila: mal ajustada ao meu corpo. Quando corria a mochila mexia-se. Não é suposto, esta deve fazer parte do nosso corpo como um todo.
O treino foi rolando, com o Armando a liderar, e desta vez a fechar o grupo teríamos o Capitão Cláudio Quelhas que, neste dia, seria apenas Cláudio Quelhas pois despiu a farda e vestiu o seu equipamento de treino.
De qualquer modo, neste dia sentia-me bestial, muito bem disposta e com a sensação de que 'hoje é o dia'!
Nuno, a revelação do dia.
De vigia, assegurando que ninguém se perdia
Passados alguns quilómetros tivemos direito a uma surpresa: atravessar uma fenda. Nunca o tinha feito e digo-vos já que a experiência é fantástica, mas ao mesmo tempo um pouco assustadora. Neste caso concreto, nunca perdemos o contacto visual entre a entrada e a saída, mas quando estamos sensivelmente a meio dá-nos aquela sensação de 'e se agora acontece aqui alguma coisa? Um tremor de terra?'
O caminho era estreito, o que permitia que nos apoiássemos nas paredes e quase no final estava o Armando a dar-nos orientações de onde e como descer: "não saltar, nunca tirar um pé sem apoiar o outro."
Yes, my captain! Here we go!!
Aconchegadinha, hein?!
Eu e a Fátima!
O final de fenda
A partir daqui os raios de sol aqueceram-nos um pouco. Hoje sim, as paisagens era absolutamente inspiradoras. Da minha parte continuava a sentir-me bem disposta, sem enjoos à vista e com vontade de continuar. Por vezes, seguiam atrás de mim grandes atletas, mas nunca me senti pressionada por nenhum deles, ninguém nunca me disse: "sai da frente, ó Guedes!"
Manteigas ao acordar
Na dúvida, quando se treina com Miguel Catarino, é sempre para cima!
O grupo dos apressados! Disseram-lhes que havia porco no espeto no próximo abastecimento... :)))
Nestes treinos é sempre possível correr com pessoas diferentes: é assim que vamos falando, conhecendo um pouco de cada um, partilhando as nossas vidas...
Decisões tomadas e lá vamos nós!
O grupo que integrei, o grupo 1, era liderado pelo Miguel Catarino e Cláudio Quelhas, o primeiro à frente o segundo atrás. Poucos metros percorridos e percebi logo que este seria um grupo diferente: mais descontraído,com um ritmo mais moderado (óbvio!!), mas muito mais animado!
O outro grupo, e sem lá ter estado, era um grupo com mais potencial e ritmo, cujo treino seria mais duro e talvez competitivo. O que é de salutar também. Ou seja, era possível fazer um treino duro mas também era possível fazer um treino "menos stressante", como alguém lhe chamou.
A animação do meu grupo também estava garantida com a presença das duas únicas mulheres de todo o grupo (palavras unânimes proferidas por todos os elementos do sexo masculino!!) e, claro, pela presença do Miguel Catarino. Eu diria que o Miguel Catarino foi o elemento galvanizador do grupo: sempre de bom humor, conversou, contou piadas e até cantou!!
Dali fomos em direcção a Manteigas e o grupo 2, seguiu serra acima.
Grupo 2 a subir
Grupo 1 a descer. Cada grupo tem o que merece! :)))
Já próximos de chegar a Manteigas, e porque a descer todos os santos ajudam, o grupo correu praticamente sempre junto até ao centro da vila, onde estaria outro ponto de abastecimento.
Julgámos que o abastecimento era aqui...
Como ninguém abriu a porta seguimos para a vila à procura do abastecimento e era ali que se decidia se continuávamos ou não.
Houve tempo para fazer xixi (e não só!!), houve tempo para começar a tirar alguma roupa porque já se fazia sentir algum calor, houve tempo para beber água, houve tempo para conversar e houve tempo para o Miguel Catarino dizer: "neste grupo ninguém desiste, vai tudo até aos 27km".
Ups...
Mas antes disso, o Cláudio Quelhas disse: "estão a ver aquelas antenas lá no alto? É para lá que vamos! Avaliem bem se estão em condições de prosseguir."
Ups...
Ao fim de alguns minutos lá demos com o abastecimento. Eu sentia-me muito bem e capaz de prosseguir. O Nuno, outro elemento do grupo, desde manhã que dizia que aos 13km parava. Não me vou alongar a falar do Nuno, até porque nem lhe pedi permissão para contar a história dele, mas o Nuno é uma pessoa cheia de força de vontade em mudar a sua vida. Consciente das suas capacidades queria ficar nos 13km, mas as palavras do Miguel Catarino tiveram um efeito rastilho e o Nuno pegou fogo! Decidiu-se pelos 27km!
Ou seja, por ordem do "comandante" Miguel Catarino ninguém parava. As suas palavras foram mais ou menos assim: "cada um tem de gerir o esforço para não quebrar, caso quebrem seremos nós, os outros, a carregar-vos. Por isso vejam lá o que é que arranjam ao grupo!"
Ó valha-me Deus!... Agora sim. Olha, como diz o Mister: Siga!!
O Júlio a receber-nos sempre com um sorriso e carregado de comidinha da boa!
E seguimos... Por ali acima.
Grupo 2
Foi aqui que viemos parar... Estão a ver lá em baixo?
E subimos...
...Por vezes com este cenário
Detalhes da organização: a componente cultural associada ao treino. As palavras nunca serão suficientes para agradecer ao Júlio todos os mimos que nos preparou.
Nesta subida o grupo distanciou-se, mas o Miguel Catarino tinha o cuidado de voltar para trás juntamente com outros elementos e rebocava quem estava mais atrás.
Nesta fase, o Miguel Catarino lançou (outro!!) desafio ao grupo (pensei para mim: já não basta ter o desafio de chegar ao fim desta epopeia vem agora o Catarino lançar ainda mais desafios...). Foi assim:
"este grupo não só vai chegar ao Vale do Rossim primeiro que o grupo 2, como vai chegar TODO junto, ouviram?".
Ou seja, o grupo 1 teria de ser mais rápido a fazer 27km, que o grupo 2 a fazer 40km. Hummmm...
Vamos lá embora então... Nos últimos 10km de percurso fomo-nos revezando uns e outros para podermos acompanhar a cauda do nosso grupo. Enquanto uns corriam mais à frente outros estavam cá mais atrás. Depois trocávamos. Foi sempre assim até aos últimos 2km.
A 2km de chegar ao fim do percurso ouvimos nos rádios que os primeiros elementos de grupo 2 estavam quase a alcançar-nos. Ou seja, vem aí a artilharia pesada!
Miguel Catarino, uma vez mais, num tom de voz militar:
"meus amigos e amigas, a partir daqui faca nos dentes! Tudo a correr e só param na meta! Eles não podem chegar à nossa frente! Se algum se aproximar é saltar-lhe às canelas e agarrá-lo! Temos de ser os primeiros a chegar e todos juntos! Vamos lá embora!"
Mais uma vez, o rastilho pegou fogo! Aquilo é que foi dar à perna. Já exaustos e agora em terreno arenoso era preciso correr cerca de 1,5km e com a pressão que a qualquer momento passariam por nós os elementos do grupo 2.
Não pára! Não pára!
A boa disposição nos últimos metros!
Bom, posso afiançar que ninguém parou. Corremos, corremos, corremos como se não houvesse amanhã. De vez em quando olhávamos para trás para ver se algum dos 'grandes' lá vinha. E corremos, corremos e corremos... Posso garantir também que, e ao contrário do que possam pensar, nesta fase, estávamos todos juntos, contentes, a dizer piadas, a elaborar estratégias de ataque ao grupo 2 caso alguém se aproximasse...
Chegámos finalmente à meta, ao fim de 5h10m, com 27km percorridos e... JUNTOS
Conseguem ver alguém com má cara???
A epopeia
Depois dos banhos e do majestoso almoço servido no restaurante do Ecoresort ouvimos a última palestra sobre nutrição desportiva e suplementação alimentar. A oradora convidada foi a Enfª Joana Graça que, também ela, direccionou a sua intervenção para o público que tinha à sua frente.
Acima de tudo a sua intervenção pautou-se por apresentar diferentes opções alimentares, tabelas de índices glicémicos e dar alguns conselhos sobre o que ingerir antes e depois de uma prova. Fundamentalmente, nas 48h que antecedem um prova devemos ter o máximo cuidado com a alimentação.
Foram dados imensos conselhos, mas houve um dado curioso que grande parte dos atletas não sabia, incluindo eu: num ponto de abastecimento o que escolher entre banana e melancia? Sabiam que a melancia tem um elevado índice glicémico? Ou seja, se chegarmos exaustos a precisar de um shot de energia devemos optar pela melancia. Se não for esse o caso podemos optar então pela banana que nos dá energia de forma mais lenta e durante mais tempo. Sabiam? Eu não.
Joana Graça
Em resumo, e para terminar, quero deixar claro que a organização deste trail camp esteve irrepreensível, proporcionando a todos os participantes momentos únicos de convívio e treino com grandes referências do trail nacional.
Faço votos que eventos desta natureza se repitam para que mais pessoas possam participar e assim contribuir para a elevação do trail no nosso país. Inspirações não nos falta, o Armando Teixeira, é uma delas. Com trabalho, rigor e treino podemos alcançar os nossos sonhos. Não temos de ser um Armando Teixeira ou um Carlos Sá, podemos ser simplesmente o Rui, o Nuno, o Pedro, o Paulo, a Fátima, o António, a Anabela, o Luís...
Vamos correr por aí, respeitando aquilo que ainda é nosso e não paga imposto. Vamos correr nas serras, vamos levar amigos para o monte, vamos fazer provas que nos empenam durante dois dias, vamos fazer tudo isto respeitando sempre a natureza e respeitando o colega que treina ou compete ao nosso lado.
No Trail Camp do Armando Teixeira aprendi que em montanha...
Ninguém fica para trás...
E porque o dia já ia longo e antes de rumar a Lisboa houve tempo para parar no spot da região. Apresento-vos as sandes de presunto e queijo da serra da D. Judite. Assim que nos viu tirar a foto com o telemóvel, a D. Judite diz-nos: "bão botar no facebook? Ó... Já lá há tantas!..."
Bem haja a si também, D. Judite, por nos acalentar a alma com essa sandes e um copinho de vinho! O que vale é que a minha janela metabólica já estava fechada!! :)))
BCA + Total Whey + Fast Recovery
Bons treinos e até breve num trilho por aí... E já sabem: se se perderem, na dúvida, é sempre para cima!
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